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A Hermenêutica do Sujeito


Quando pensamos o sujeito hoje, costumamos perguntar:


Quem sou eu?

Como me conhecer melhor?


Mas Michel Foucault desloca radicalmente essa questão.

Em seu curso A Hermenêutica do Sujeito, ele propõe outra pergunta:


Que trabalho devo realizar sobre mim mesmo para me tornar capaz de verdade?


Aqui, a verdade já não é apenas informação.

Ela exige uma transformação do modo de ser.


O ponto de partida: o “Cuidado de Si”


Foucault mostra que, na Antiguidade, o eixo da vida filosófica não era o famoso “conhece-te a ti mesmo”, mas algo anterior:


O Cuidado de Si (Epiméleia heautoû)


Antes de conhecer-se, era necessário:


• cuidar-se

• exercitar-se

• vigiar os pensamentos

• transformar a forma de viver


O conhecimento de si não era um ato intelectual, mas o efeito de um processo de formação do sujeito.


A verdade como experiência transformadora


Para os antigos, a verdade não era um conjunto de dados objetivos.

Era algo que transformava o sujeito.

Somente quem havia se preparado — por meio de práticas, disciplina, atenção e transformação — podia ter acesso a ela.


A isso Foucault chama de espiritualidade (em sentido não religioso): o conjunto de condições que permite que a verdade atue sobre aquele que a recebe.


Essas condições incluíam:

• Purificação

• Conversão do olhar

• Mudança do modo de vida

• Exercícios constantes sobre si mesmo


As Tecnologias de Si


Foucault denomina Tecnologias de Si as práticas por meio das quais o sujeito se forma e se governa.


Entre elas estavam:


• A escrita pessoal

• O diálogo filosófico

• A meditação sobre a morte

• O controle das paixões

• A relação mestre–discípulo

• A atenção aos próprios pensamentos


A filosofia não era apenas teoria.

Era uma arte de viver.


A ruptura moderna


Com René Descartes, ocorre uma ruptura decisiva.O sujeito moderno já não precisa transformar-se para conhecer.Basta pensar corretamente.

A verdade torna-se uma questão de método, não de vida.O sujeito passa a ser um sujeito cognitivo, racional, separado de sua formação ética.


Duas formas de compreender o sujeito

Antiguidade 

Modernidade

A verdade transforma o sujeito

O sujeito analisa a verdade

Conhecer é mudar o modo de ser

Conhecer é uma operação intelectual

Ética e verdade inseparáveis

Conhecimento separado da ética

Práticas de si

Método científico

Filosofia como prática de transformação


A ascese antiga não era mortificação, mas exercício.

A filosofia era um treinamento do modo de ser.


Filosofar significava:

• Observar-se

• Modular os afetos

• Transformar a relação consigo mesmo

• Modificar o modo de habitar o mundo


A atualidade dessa perspectiva


A importância desse curso hoje é imensa.


Ele nos permite pensar:

• A psicoterapia como prática de transformação

• A educação como formação do sujeito

• A ética como estética da existência

• A espiritualidade como trabalho sobre si, sem necessidade de religião


Foucault nos lembra que:


O problema não é descobrir quem somos, mas tornar-nos capazes de outra forma de ser.


Uma frase que resume


Não se trata de conhecer o sujeito, mas de formar um sujeito capaz de verdade.

 

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